Na segunda (17/02) completamos nosso primeiro mês na Irlanda, nossa vida está funcionando minimamente normal, alias praticamente normal. Pedro completamente adaptado a escola, eu engrenando minha vida no regime semi aberto enquanto Pedro está na escola ,achávamos que a não fala, talvez, atrapalhasse a adaptação dele, mas pelo contrário ajudou porque o uso dos gestos é universal.
Entre segunda e quinta Pedro tinha escolinha e foi bem corrido com os afazeres de casa.
Na sexta foi, emocionalmente, bem ruim. Eu mini surtei por não conseguir organizar minha vida e ter algum tipo de realização pessoal, está distante mas chegará. Muitos sentimentos confusos e falta de clareza de qual é meu propósito de vida. São coisas que ainda permeiam na angustia de existência. As escolhas que fiz foram bem feitas e não acho que precise arrepender-me delas. Antes de Pedro chegar, eu tinha um norte das coisas que eu queria fazer na vida, mas ainda meio nebuloso. Depois do nascimento dele ficou tudo ainda mais turvo, será que esse pretenso caminho não era o certo? Ou ainda é e eu não estou conseguindo enxergar ?
A sensação de estar no fundo e não ver a superfície do mar é algo que me angustia bastante. Eu sou realizada com meu casamento e a maternidade, mas sabe aquela sensação que falta algo no campo profissional, principalmente, estudar é uma paixão, aprender coisas novas como disse anteriormente é tão necessário como respirar. O que realmente me faz feliz ?
Dúvidas que doem tanto, eu sabia que não seria fácil esse reinicio de vida aqui na Irlanda, mas, porra, porque eu preciso ficar me testando e cobrando o tempo todo. Por que ? Por que?
Eu vou tentar falar com minha terapeuta, preciso organizar melhor as minhas ideias. Com ela tudo fica claro e límpido, sensação que tiro o fone dos ouvidos e tem alguém falando e não consigo compreender e ela tem esse poder. Eu acho que a depressão tem uma participação por não conseguir criar propósito no que eu faço, “tá difícil ser eu sem reclamar de tudo, passa nuvem negra , larga o dia e vê se leva o mal que me arrastou .” Essa sensação de impotência da minha própria vida. Talvez voltar a meditar me ajude a clarear as vontades do que eu quero, é um puta exercício de tentar trazer as coisas para claridade e ver o lado do bom de tudo. por mais que eu queira há uma autossabotagem de só querer ver o que não se consegue no escuro.
Volto a dizer que eu mais ou menos sabia que não seria tão fácil esse restarte da vida, ok eu paguei pra ver.
Eu não queria sentar para escrever, fazer qualquer outra coisa parecia ser mais interessante. Mas como escrever é uma das coisas que me faz bem quis quebrar esse ciclo de autossabotagem porque a minha desculpa é que não estava “realmente inspirada” e na verdade esses são os melhores momentos para tal. Cuja a vida que passa tão apressada precisa de pausas como essas com direito a chazinho e biscoito para motivar um pouco mais. Ouvir musicas é um bom fio condutor para relaxar e deixar os dedos deslizar sobre o teclado do computador e sair os sentimentos em forma de palavras, também trazer clareza do que sinto, agora estou na verborreia e com calma num outro momento corrijo o texto, tirando o que não faz sentido.
Voltando ao fim de semana, depois da crise de sexta combinei com Joel que eu iria sair para resolver o que precisava sozinha, assim poderia esparecer, caminhar me endorfina.
No sábado a noite Pedro ficou muito incomodado com ouvido e sem posição para dormir então achamos prudente leva-lo ao médico, eu não sei se já contei como funciona o sistema de saúde aqui na Irlanda. É assim: você tem um médico da família, chamado de General Practitioner (GP) e ele é responsável por um grupo de funcionários de uma empresa ou de uma localidade.Aqui em Athlone não existe um hospital , mas tem clinicas 24h para emergências e se for necessário eles te levam para hospital que fica a vinte e cinco minutos daqui de carro. O caso de Pedro era simples, uma gripe com ouvido e garganta inflamadas e precisava apenas ser medicado, mas não ainda adianta sair correndo para lá, precisa ligar antes, falar com a enfermeira e a depender do que ela disser você está autorizado a ir até lá ou não. Joel ligou, explicou tudo e a enfermeira falou para irmos para o médico examinar, como em qualquer Pronto socorro ela faz uma triagem básica de medir temperatura e ver saturação e ficamos esperando o médico nos chamar, um fofo o médico que nos atendeu, teve paciência com Pedro. Detalhe engraçado, a enfermeira pedindo desculpas porque precisava “marcar” a nossa consulta para daqui vinte minutos porque estava meio cheio naquele dia, uma pessoa na nossa frente. Quem está acostumado com PS cheios e filas intermináveis chega ser engraçado situações como essa. Mas tudo deu certo, voltamos com remédio para uma primeira dose e em paz por ter feito o que era necessário, pela dúvida se poderia ser contagioso ou não optamos por ele não ir no aniversário da filhinha da Amanda, eu fui para dar um abraço neles e Joel ficou em casa com Pedro.
Coisas normais para irlandeses e para nós (brasileiros) estranhas: não existe uma super produção de aniversário, é apenas um bolo em casa com poucas pessoas; a mão de direção é inglesa, eu ainda me atrapalho em olhar para o lado certo para atravessar a rua; o seu numero de identificação de vida social (PPS -personal public service) e de saúde é o mesmo, então é possível ter sua vida registrada num mesmo lugar e prontuario médico. Muito parecido com o nosso CPF no Brasil.


